O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, republicou na segunda-feira (31) uma imagem no Truth Social com uma alegação sobre crianças amish não vacinadas e autismo. A postagem sugere que a suposta ausência de um caso publicado apoiaria uma relação entre vacinação e Transtorno do Espectro Autista (TEA).
Essa conclusão não é sustentada pelas evidências. O levantamento de 2010 citado na própria imagem identificou sete crianças amish com autismo, mas o resumo científico não informa a situação vacinal individual desses casos. Sem esse dado, o estudo não permite afirmar se as crianças diagnosticadas eram ou não vacinadas — muito menos estabelecer causa e efeito.
O que Trump compartilhou
Trump não redigiu a mensagem: ele compartilhou, sem legenda, uma imagem que dizia não existir um caso publicado que tivesse documentado explicitamente uma criança amish não vacinada com autismo. A formulação é estreita e transforma uma ausência de informação específica em argumento para uma conclusão que a pesquisa não investigou.
A própria imagem reconhece que há registros de autismo entre pessoas amish. Ainda assim, usa a falta de uma descrição individual sobre vacinação para insinuar que as vacinas poderiam explicar os diagnósticos. Ausência de dado não é evidência de ausência, e também não demonstra relação causal.
Estudo citado encontrou sete casos de autismo
O trabalho apresentado em 2010 no International Meeting for Autism Research acompanhou comunidades amish dos condados de Holmes, em Ohio, e Elkhart-Lagrange, em Indiana. Entre setembro de 2008 e outubro de 2009, os pesquisadores fizeram a triagem de 1.899 crianças e adolescentes de 3 a 21 anos.
Vinte e cinco participantes tiveram resultado positivo em pelo menos um dos instrumentos de triagem. Quatorze passaram por avaliação clínica mais completa, e sete tiveram o diagnóstico de TEA confirmado por entrevistas, observação padronizada e julgamento clínico. Os autores calcularam uma estimativa preliminar de aproximadamente um caso para cada 271 crianças.
O método informa que históricos de vacinação foram coletados, mas os resultados publicados no resumo não cruzam esse dado com os sete diagnósticos. Por isso, o levantamento não confirma a situação vacinal dos casos e não sustenta a afirmação reproduzida por Trump.
Diferenças de diagnóstico exigem cautela
Os próprios pesquisadores advertiram que hábitos culturais e a forma como cuidadores amish relatavam comportamentos poderiam influenciar a estimativa. Acesso limitado a serviços especializados, diferenças nos critérios diagnósticos e subnotificação também tornam inadequada uma comparação direta com outras populações.
Também não é correto tratar todas as crianças amish como não vacinadas. Estudos reunidos em checagem da Reuters registram famílias amish que adotam a vacinação infantil, embora algumas comunidades apresentem taxas de cobertura mais baixas.
Vacinas não causam autismo
Em dezembro de 2025, o Comitê Consultivo Global sobre Segurança de Vacinas da Organização Mundial da Saúde analisou 31 estudos primários publicados entre janeiro de 2010 e agosto de 2025. A conclusão foi de que não existe relação causal entre vacinas e autismo.
A OMS também reafirmou que vacinas com timerosal ou pequenas quantidades de alumínio não causam TEA. No Brasil, o Ministério da Saúde dá a mesma orientação e lembra que o artigo de 1998 que levantou suspeitas sobre a vacina tríplice viral foi considerado gravemente falho e retirado pela revista científica que o havia publicado.
Orientações sobre vacinação
Decisões sobre vacinação devem seguir o calendário do Programa Nacional de Imunizações e a orientação de profissionais de saúde. Postagens em redes sociais e estudos que não respondem à pergunta apresentada não substituem as evidências acumuladas em pesquisas de segurança.
Foto de capa: Molly Riley/Casa Branca, 10 de agosto de 2026. Imagem de domínio público por ter sido produzida no exercício de funções oficiais do governo dos Estados Unidos.




