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Coluna de Keila Couto Seiler

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Escuta e Acolhimento em Acesso · Saúde

Nossas dores não podem ser reduzidas à maternidade

Keila Couto Seiler reflete sobre a escuta das mães atípicas, a investigação de sintomas e as redes de apoio entre mulheres.

Quem cuida de todos também precisa ser ouvido quando diz que sente dor.

Muitas de nós, mães atípicas, vivemos uma rotina intensa de cuidados, consultas, terapias e preocupações com nossos filhos. Mas existe um risco silencioso nessa realidade: começarmos a acreditar que todo cansaço, toda dor e toda mudança no nosso corpo são consequências naturais dessa rotina.

Durante o climatério, na menopausa ou diante de sintomas de condições como a endometriose, precisamos de escuta, investigação e diagnóstico adequado. Não podemos aceitar que nossas queixas sejam atribuídas automaticamente ao estresse, à exaustão ou às exigências da maternidade atípica.

A sobrecarga também pode repercutir no organismo. O estresse persistente pode alterar a regulação do cortisol, conhecido como o hormônio do estresse, e contribuir para dificuldades de sono, alterações de humor e maior sensação de desgaste. Também pode intensificar alguns sintomas do climatério, tornando essa fase ainda mais desafiadora. Isso, porém, não justifica reduzir todas as nossas queixas ao emocional: cada sintoma merece uma avaliação individualizada.

O cansaço não exclui a possibilidade de uma doença. A sobrecarga não substitui a necessidade de investigação clínica. E ser mãe atípica não deveria diminuir a credibilidade daquilo que sentimos.

Quantas de nós adiamos consultas? Quantas convivemos com dores por anos? Quantas deixamos de insistir em nossas queixas porque aprendemos a colocar as próprias necessidades em último lugar?

Precisamos falar sobre isso. Precisamos compreender que cuidar dos nossos filhos não nos torna imunes às doenças e que nenhuma mulher deveria precisar provar que sua dor é real para receber atenção médica.

A maternidade atípica já exige muito de nós. Ela não pode também se tornar a justificativa para que nossas dores sejam ignoradas.

Somos mães, mas também somos mulheres. Temos um corpo que precisa de cuidado, uma saúde que merece atenção e o direito de sermos ouvidas e levadas a sério.

Não permita que a maternidade explique todas as suas dores. Você tem o direito de ser ouvida, de ter seus sintomas investigados e de receber cuidado.

Esse cuidado também precisa encontrar espaço nas nossas relações. Participar de comunidades de mães atípicas que se acolhem, se compreendem e cuidam umas das outras pode nos ajudar a compartilhar experiências, reconhecer nossas necessidades e encontrar apoio para procurar atendimento. Esses vínculos não substituem o acompanhamento profissional, mas podem nos lembrar de algo que a rotina tantas vezes apaga: nós também merecemos cuidado.

Quem sustenta tantos caminhos também precisa encontrar onde descansar.

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