Quem cuida de todos também precisa ser ouvido quando diz que sente dor.
Muitas de nós, mães atípicas, vivemos uma rotina intensa de cuidados, consultas, terapias e preocupações com nossos filhos. Mas existe um risco silencioso nessa realidade: começarmos a acreditar que todo cansaço, toda dor e toda mudança no nosso corpo são consequências naturais dessa rotina.
Durante o climatério, na menopausa ou diante de sintomas de condições como a endometriose, precisamos de escuta, investigação e diagnóstico adequado. Não podemos aceitar que nossas queixas sejam atribuídas automaticamente ao estresse, à exaustão ou às exigências da maternidade atípica.
A sobrecarga também pode repercutir no organismo. O estresse persistente pode alterar a regulação do cortisol, conhecido como o hormônio do estresse, e contribuir para dificuldades de sono, alterações de humor e maior sensação de desgaste. Também pode intensificar alguns sintomas do climatério, tornando essa fase ainda mais desafiadora. Isso, porém, não justifica reduzir todas as nossas queixas ao emocional: cada sintoma merece uma avaliação individualizada.
O cansaço não exclui a possibilidade de uma doença. A sobrecarga não substitui a necessidade de investigação clínica. E ser mãe atípica não deveria diminuir a credibilidade daquilo que sentimos.
Quantas de nós adiamos consultas? Quantas convivemos com dores por anos? Quantas deixamos de insistir em nossas queixas porque aprendemos a colocar as próprias necessidades em último lugar?
Precisamos falar sobre isso. Precisamos compreender que cuidar dos nossos filhos não nos torna imunes às doenças e que nenhuma mulher deveria precisar provar que sua dor é real para receber atenção médica.
A maternidade atípica já exige muito de nós. Ela não pode também se tornar a justificativa para que nossas dores sejam ignoradas.
Somos mães, mas também somos mulheres. Temos um corpo que precisa de cuidado, uma saúde que merece atenção e o direito de sermos ouvidas e levadas a sério.
Não permita que a maternidade explique todas as suas dores. Você tem o direito de ser ouvida, de ter seus sintomas investigados e de receber cuidado.
Esse cuidado também precisa encontrar espaço nas nossas relações. Participar de comunidades de mães atípicas que se acolhem, se compreendem e cuidam umas das outras pode nos ajudar a compartilhar experiências, reconhecer nossas necessidades e encontrar apoio para procurar atendimento. Esses vínculos não substituem o acompanhamento profissional, mas podem nos lembrar de algo que a rotina tantas vezes apaga: nós também merecemos cuidado.
Quem sustenta tantos caminhos também precisa encontrar onde descansar.




