O Grande Prêmio de São Paulo de Fórmula 1 transforma Interlagos em uma verdadeira cidade temporária. Durante três dias, milhares de pessoas circulam por arquibancadas, áreas de alimentação, espaços de convivência e estruturas montadas especialmente para receber um dos maiores eventos esportivos realizados no Brasil.
Na edição de 2025, foram 303.627 pessoas no autódromo. O impacto econômico estimado chegou a R$ 2,3 bilhões. São números que ajudam a dimensionar a responsabilidade existente por trás de um evento dessa proporção.
E, quando falamos de responsabilidade, acessibilidade precisa necessariamente fazer parte da conversa.
Desde 2023, acompanho o processo de aprimoramento das condições oferecidas às pessoas com deficiência no Grande Prêmio de São Paulo. Quem olha apenas para a estrutura atual talvez não consiga dimensionar o quanto esse cenário mudou em poucos anos.
Quando visitei o evento pela primeira vez, em 2023, para avaliar suas condições de acessibilidade, encontrei estruturas e serviços que ainda apresentavam muitas limitações. A realidade exigia mudanças.
E elas começaram a acontecer.
Já havia naquele período iniciativas importantes, desenvolvidas também em parceria com a Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência de São Paulo, como vans acessíveis, intérpretes de Libras, equipes de acolhimento e a Paraoficina Móvel, destinada à manutenção de cadeiras de rodas e outros equipamentos de mobilidade.
Mas acessibilidade não se resume à existência de serviços isolados.
Acessibilidade precisa funcionar como um sistema
Em 2024, um dos avanços esteve na organização dos espaços destinados às pessoas com deficiência. Áreas reservadas nas arquibancadas passaram a considerar com maior atenção a proximidade de sanitários acessíveis e pontos de alimentação, buscando reduzir deslocamentos.
Pode parecer um detalhe para quem nunca enfrentou uma barreira de mobilidade. Não é.
De nada adianta disponibilizar um espaço reservado em uma arquibancada se, para ir ao banheiro, comprar água ou acessar outra atração, aquela pessoa precisa enfrentar um percurso longo, inclinado ou cheio de obstáculos.
É justamente aí que está uma das questões que considero centrais quando falamos de grandes eventos: acessibilidade não é a soma de equipamentos acessíveis. É a conexão entre eles.
Transporte, entrada, circulação, sanitários, alimentação, comunicação, atendimento, segurança e permanência precisam conversar entre si.
Quando uma dessas partes falha, toda a experiência pode ser comprometida.
Em 2025, outros avanços ficaram mais evidentes. A comunicação acessível ganhou espaço, com interpretação em Libras nos conteúdos apresentados nos telões da Fanzone, além de melhorias no receptivo e nas áreas destinadas às pessoas com deficiência.
Também foi implantada uma sala de descompressão, recurso especialmente importante para pessoas autistas, neurodivergentes ou que necessitam de um ambiente com menor carga sensorial durante um evento marcado por ruído, multidões, luzes e intensa movimentação.
São medidas que mostram uma compreensão mais ampla sobre o que significa tornar um grande evento acessível.
O que está previsto para 2026
Para a edição de 2026, marcada para os dias 6, 7 e 8 de novembro, novos recursos estão previstos.
Entre eles estão serviços de transporte acessível, com vans fazendo a conexão entre a Estação Jurubatuba e o autódromo, veículos do Atende+ e transporte interno para auxiliar pessoas que necessitem de apoio no deslocamento entre determinados pontos de Interlagos.
Essa operação é particularmente importante por uma característica que não pode ser ignorada: a topografia do autódromo.
Interlagos possui grandes distâncias, desníveis importantes e uma circulação extremamente intensa durante o Grande Prêmio. Para uma pessoa com deficiência ou mobilidade reduzida, aquilo que no mapa parece ser apenas um deslocamento entre dois setores pode representar uma barreira considerável.
Também está prevista uma Central de Acessibilidade e Acolhimento próxima ao Portão 9, funcionando como referência para orientação e atendimento ao público com deficiência e mobilidade reduzida.
A previsão é de que o evento conte ainda com duas salas de descompressão em áreas de grande circulação.
Outro avanço relevante está na orientação espacial. Mapas táteis estão previstos nos acessos aos setores, especialmente para auxiliar pessoas com deficiência visual, enquanto as sinalizações de acessibilidade foram aprimoradas com pictogramas e informações em português, inglês e espanhol.
São soluções importantes.
Mas nenhuma estrutura funciona plenamente se as pessoas responsáveis pelo atendimento não estiverem preparadas.
A barreira também pode estar na atitude
Podemos projetar uma rota acessível perfeita, instalar sanitários adequados, criar espaços reservados e disponibilizar recursos tecnológicos. Ainda assim, uma abordagem inadequada de um profissional pode transformar uma experiência positiva em uma situação constrangedora.
Por isso, acessibilidade também passa por comportamento.
A capacitação das equipes faz parte desse processo. Com apoio da Prefeitura, colaboradores recebem formação voltada ao atendimento e à sensibilização sobre pessoas com deficiência.
Esse trabalho é indispensável para enfrentar algo que nenhuma rampa, mapa ou elevador consegue resolver sozinho: o capacitismo.
A maneira como uma pessoa é recebida, orientada e atendida influencia diretamente sua autonomia dentro de um evento.
E autonomia deve ser sempre o objetivo.
Pessoas com deficiência não estão em Interlagos apenas como destinatárias de um serviço especial. São torcedoras. Querem assistir à corrida, vibrar, encontrar amigos, estar com a família, consumir, circular pela Fanzone e viver tudo aquilo que qualquer outra pessoa espera experimentar durante um Grande Prêmio.
A acessibilidade existe justamente para que isso aconteça em igualdade de oportunidades.
Avançamos muito. E ainda precisamos avançar.
Considero muito significativa a transformação que ocorreu desde minha primeira avaliação, em 2023.
Seria injusto ignorar os avanços realizados ao longo dessas quatro edições. Houve evolução de infraestrutura, serviços, comunicação, acolhimento sensorial e preparação das equipes.
Mas reconhecer avanços não significa afirmar que o trabalho terminou.
Acessibilidade nunca deveria ser encarada como uma etapa concluída.
Um evento muda. O público muda. As tecnologias avançam. Novas barreiras são identificadas e outras soluções se tornam possíveis.
Por isso, avaliação permanente e escuta das próprias pessoas com deficiência precisam fazer parte de qualquer projeto comprometido verdadeiramente com inclusão.
E existe um ponto que, para mim, precisa ser levado como principal aprendizado para as próximas edições.
Minha participação no trabalho de 2026 aconteceu na etapa final da produção. Isso reforçou algo que defendo há muito tempo: o especialista em acessibilidade precisa estar presente desde a concepção do projeto, e não apenas quando a estrutura já está praticamente definida.
Quanto mais cedo a acessibilidade entra no planejamento, melhores são as soluções.
E, muitas vezes, menores são os custos.
Planejar corretamente evita adaptações improvisadas, retrabalho e intervenções tardias. Mais do que cumprir normas, significa incorporar o desenho universal à própria lógica de funcionamento do evento.
Essa talvez seja uma das maiores contribuições que a experiência de Interlagos pode oferecer a outros grandes eventos brasileiros.
A pergunta não deveria ser: “como vamos adaptar isso para uma pessoa com deficiência?”
A pergunta deveria ser, desde o primeiro desenho do projeto: “como vamos construir isso para que todas as pessoas possam participar?”
Essa mudança de perspectiva transforma tudo.
A Fórmula 1 é feita de velocidade, tecnologia, emoção e evolução constante.
A acessibilidade também precisa seguir avançando.
Porque a emoção de estar em Interlagos, ouvir os carros entrando na pista e viver um dos maiores eventos esportivos do mundo deve estar ao alcance de todos.
Sobre o autor
Renato Melhem é arquiteto e consultor em acessibilidade e mobilidade, um dos autores da Resolução CPA/SMPED/032/2023 e membro da Comissão de Estudo de Acessibilidade em Eventos da ABNT. Atua na equipe de arquitetura do Grande Prêmio de São Paulo como especialista em acessibilidade e inclusão.
Este é um artigo de opinião. O conteúdo expressa a análise e a experiência profissional do autor.






