Opinião

O capacitismo que fez a virada histórica

A frase de Flávio Bolsonaro contra Lula expôs ao país uma forma de preconceito que pessoas com deficiência enfrentam diariamente. Na minha leitura, a reação à ofensa ajuda a compreender a virada eleitoral.

Flávio Bolsonaro, à esquerda, faz sinal de V com as duas mãos; Lula, à direita, ergue os polegares. Ambos usam ternos escuros diante de um painel azul com a marca da Globo.
Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Acredito que a virada histórica que reelegeu Lula também precisa ser analisada a partir de uma expressão usada por Flávio Bolsonaro no último debate presidencial: “nove dedos”. Ao recorrer à ausência de um dedo para atacar o adversário, o candidato transformou uma característica física em instrumento de desqualificação. A cena colocou o capacitismo diante do país, em rede nacional.

Para mim, uma fala assim exige atenção porque reproduz uma lógica que ultrapassa a disputa entre dois candidatos: a ideia de que o corpo ou a condição de uma pessoa podem ser usados para diminuir seu valor.

Capacitismo é o preconceito e a discriminação contra pessoas com deficiência. Ele aparece quando alguém presume incapacidade, desconsidera a autonomia de uma pessoa ou transforma sua deficiência em motivo de humilhação. Também está presente nas barreiras que impedem estudar, trabalhar, circular e participar da vida pública em igualdade de condições.

No debate de sexta-feira, na Globo, essa lógica apareceu em uma provocação dirigida ao presidente da República. A expressão foi usada para atingir Lula justamente por uma característica de seu corpo. A crítica política poderia tratar de decisões, propostas, resultados e responsabilidades. Flávio escolheu acrescentar a deficiência ao ataque.

Lula perdeu o dedo em um acidente de trabalho. Essa história tornou a provocação ainda mais significativa para mim, porque trouxe ao confronto eleitoral uma marca da vida de um trabalhador. Ainda assim, o respeito ao corpo de alguém não depende de uma trajetória que desperte identificação. Uma pessoa que nasce com deficiência tem o mesmo direito de ser respeitada que aquela que a adquire ao longo da vida.

Ao dizer que o Brasil conheceu o capacitismo naquele episódio, penso na oportunidade de reconhecer uma violência muitas vezes tratada como brincadeira. A palavra já existia, assim como a luta das pessoas com deficiência. O debate ofereceu um exemplo concreto de como esse preconceito pode aparecer até na fala de quem pretende ocupar a Presidência.

Na minha avaliação, a rejeição à ofensa pode ter contribuído para a derrota de Flávio Bolsonaro. Uma declaração desse tipo permite ao eleitor avaliar o modo como um candidato trata alguém que deseja enfrentar. Para mim, essa é uma questão relevante na escolha de quem terá a responsabilidade de governar uma população diversa.

O tamanho desse efeito sobre os votos, porém, não está demonstrado pelas informações disponíveis. Uma eleição envolve avaliação de governo, propostas, mobilização, rejeições e decisões individuais. Não atribuo todo o resultado a uma frase. Minha leitura é que o episódio pode ter pesado nesse conjunto e se tornou um dos símbolos da virada.

Flávio pediu desculpas durante o debate. Considero necessário registrar isso. Também considero legítimo avaliar a formulação do pedido e o que veio depois dele. Reconhecer uma atitude capacitista exige compreender por que a deficiência foi usada como recurso de ataque e assumir a responsabilidade de não repetir essa conduta.

Como pai, quero que meu filho cresça em uma sociedade na qual sua presença seja respeitada, inclusive quando houver discordância. Como homem autista, quero participar dos debates públicos sem que minha condição seja tratada como argumento contra mim. Como jornalista, considero parte do meu trabalho identificar esse preconceito e explicar como ele opera.

Essa cobrança precisa permanecer depois da eleição. O enfrentamento ao capacitismo exige continuidade na educação, na saúde, no trabalho, na comunicação e na participação política. A indignação provocada por uma fala precisa acompanhar também as decisões que afetam a vida das pessoas com deficiência.

Vejo na vitória de Lula uma oportunidade de manter essa discussão em evidência. Acredito que a reação ao ataque ajudou a compor a virada histórica. Agora, pretendo cobrar do presidente reeleito políticas, orçamento e execução, e de todos os representantes públicos o respeito que faltou naquele momento do debate.

Leia também

Continue acompanhando

Preferências de privacidade

Escolha quais recursos opcionais deseja permitir. Nada é ativado ao fechar esta janela sem salvar. As escolhas valem por até 180 dias neste navegador.

Cookies e tecnologias semelhantes
Necessários — sempre ativos

Segurança, registro da sua escolha, login da redação e preferências de acessibilidade solicitadas. Não servem para medir audiência.

Não utilizamos rastreadores de publicidade nesta versão. Revogar uma permissão bloqueia novas coletas e remove o identificador local de audiência; dados já recebidos podem ser objeto de solicitação pelo nosso canal de privacidade.

Consultar a política completa

Carregar o tradutor externo VLibras?

O VLibras é um serviço externo de tradução automática para Libras. Ao carregá-lo, os servidores do serviço recebem dados de conexão e os textos enviados para tradução. O aplicativo também pode enviar métricas de uso ao PostHog, independentemente da sua escolha sobre as estatísticas do Modo de Acesso.

O restante dos recursos de acessibilidade continua disponível. Esta autorização vale somente nesta aba; ela não altera suas preferências de cookies do portal.

Consultar a Política de Privacidade e Cookies