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Apenas 3 de 20: luta das pessoas com deficiência tem pouca repercussão entre clubes da Série A

São Paulo, Atlético-MG e Vasco tiveram manifestações ou iniciativas verificadas relacionadas ao 21 de setembro.

Foto: Meu Vasco

Um dia depois do Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência e justamente nesta terça-feira, 22 de setembro, Dia Nacional do Atleta Paralímpico, um levantamento do Modo de Acesso mostra que a mobilização pública dos principais clubes do futebol brasileiro em torno da pauta ainda foi pequena.

Após uma nova checagem realizada na manhã desta terça-feira (22), a reportagem localizou manifestações diretamente relacionadas ao 21 de setembro em apenas três dos 20 clubes que disputam a Série A do Campeonato Brasileiro de 2026: São Paulo, Atlético-MG e Vasco da Gama.

Isso representa 15% dos participantes da principal divisão do futebol nacional.

Nos canais pesquisados dos outros 17 clubes, não foi encontrada publicação ou ação pública específica relacionada ao Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência.

O número chama atenção diante do tamanho social do futebol brasileiro e principalmente porque pessoas com deficiência também são torcedoras, atletas, funcionárias, dirigentes, comunicadoras e integrantes das comunidades que cercam os clubes.

A data de 21 de setembro marca a mobilização pela garantia de direitos, pela acessibilidade, pela participação social e pelo enfrentamento ao capacitismo. Segundo o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, cerca de 14,4 milhões de brasileiros com dois anos ou mais tinham alguma deficiência, segundo os dados do Censo 2022.

São Paulo valorizou seus atletas paralímpicos

Entre os clubes que marcaram a data, o São Paulo Futebol Clube promoveu uma ação diretamente ligada ao esporte paralímpico.

Antes da partida contra o Internacional, disputada no sábado (19), dez atletas que defendem o Tricolor no projeto APNH/SPFC deram uma volta pela pista de atletismo do MorumBIS.

A parceria entre o São Paulo e a Associação Paradesportiva de Novo Horizonte começou em 2024 com a natação e posteriormente foi ampliada para atletismo, halterofilismo, karatê, triathlon, tiro esportivo e tiro com arco.

Segundo o clube, mais de 150 atletas integram atualmente a equipe APNH/SPFC.

O próprio São Paulo explicou que a iniciativa foi realizada pela proximidade de duas datas: o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, em 21 de setembro, e o Dia Nacional do Atleta Paralímpico, celebrado nesta terça-feira (22).

O clube afirmou ainda que a ação buscou valorizar os atletas e reforçar o esporte como instrumento de inclusão, oportunidades e pertencimento.

A iniciativa ganha significado especial neste dia 22 porque coloca atletas com deficiência no centro da ação, indo além de uma arte comemorativa publicada nas redes sociais.

Atlético-MG levou a pauta para dentro da Arena MRV

O Atlético-MG realizou uma das programações mais amplas encontradas pelo levantamento.

As ações começaram antes mesmo do dia 21 e fizeram parte de uma programação organizada pelo clube durante o chamado Setembro Verde.

No sábado (19), antes da partida contra a Chapecoense, dez pessoas com deficiência entraram no gramado da Arena MRV para transmitir uma mensagem sobre inclusão.

Familiares, companheiros e amigos também circularam pelo campo com uma faixa relacionada à importância das redes de apoio para a construção da autonomia das pessoas com deficiência.

A programação do Atlético incluiu ainda a participação do consultor de acessibilidade do clube, David César, em conteúdos institucionais, além da iluminação da Arena MRV na cor verde no próprio dia 21 de setembro.

Jogadores do elenco também receberam sinais próprios utilizados para identificá-los na comunidade surda, e o clube divulgou iniciativas de acessibilidade realizadas na Arena MRV.

Neste caso, a pauta da deficiência não apareceu apenas em uma postagem. Pessoas com deficiência participaram diretamente das ações promovidas pelo clube.

Vasco publicou sobre a data e abriu São Januário para diálogo

A atualização realizada pelo Modo de Acesso nesta terça-feira identificou também uma manifestação do Vasco da Gama, publicada no início da noite de segunda-feira (21).

Em seus canais institucionais, o clube destacou a importância de uma sociedade mais acessível, inclusiva e igualitária e afirmou que a acessibilidade deve permitir que cada pessoa possa viver, torcer, participar e ocupar os espaços com autonomia e dignidade.

Mas a participação vascaína não ficou apenas na publicação.

No próprio dia 21, o Vasco convidou pessoas com deficiência e representantes de grupos ligados à acessibilidade para uma roda de conversa em São Januário.

Segundo participantes da atividade, o encontro discutiu a acessibilidade no Museu Vasco da Gama e no estádio, abrindo espaço para que pessoas com deficiência apontassem necessidades e possíveis melhorias.

Participaram representantes de grupos como Autistas da Colina, Vasurdos, Vascainos PcDs e Vasco Libras. O relato da atividade foi publicado por participantes e posteriormente repercutido por veículos especializados na cobertura do clube.

A iniciativa se diferencia por incluir uma etapa essencial quando se fala em acessibilidade: ouvir diretamente as pessoas que enfrentam as barreiras.

E os outros 17 clubes da Série A?

O recorte considerou os 20 participantes da Série A de 2026. A rodada disputada no último fim de semana reuniu Atlético-MG, Chapecoense, Mirassol, Botafogo, Remo, Santos, Vasco, Coritiba, São Paulo, Internacional, Grêmio, Palmeiras, Vitória, Cruzeiro, Corinthians, Fluminense, Flamengo, Red Bull Bragantino, Athletico-PR e Bahia.

Foram feitas buscas individualizadas utilizando o nome de cada clube associado a termos como “21 de setembro”, “Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência”, “pessoa com deficiência”, “acessibilidade”, “inclusão” e “Setembro Verde”, além da consulta a sites institucionais e publicações de redes sociais localizáveis pelos mecanismos de pesquisa.

A ausência nessa relação não significa que esses clubes não desenvolvam ações de acessibilidade em outros períodos do ano. Também não é possível descartar conteúdos temporários, como Stories, publicações não indexadas ou iniciativas internas que não tenham sido divulgadas publicamente.

O critério deste levantamento é mais específico: identificar quais clubes utilizaram seus canais ou promoveram ações públicas diretamente vinculadas ao Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência de 2026.

Sport promoveu inclusão, mas não vinculou ação ao 21 de setembro

Fora da Série A, uma iniciativa merece ser registrada.

O Sport Club do Recife, que disputa a Série B, realizou no sábado (19) mais uma edição do programa Torcedor Nota 10 na Ilha do Retiro.

Estudantes de sete escolas municipais do Cabo de Santo Agostinho participaram da experiência, e, segundo o próprio Sport, a maioria dos participantes era formada por estudantes com deficiência e seus acompanhantes.

O clube definiu o projeto como uma iniciativa que reúne educação, inclusão e incentivo ao esporte.

Entretanto, a publicação oficial consultada pelo Modo de Acesso não relaciona a atividade ao Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência.

Por esse motivo, o Sport não foi contabilizado entre os clubes que fizeram manifestações específicas sobre a data.

O caso, no entanto, também aponta para algo importante: a inclusão não precisa acontecer somente em 21 de setembro.

Mais do que uma postagem

Também é importante reconhecer que publicar uma homenagem em uma data específica não é suficiente para definir se um clube é ou não acessível.

A acessibilidade precisa estar presente durante todo o ano: na arquitetura dos estádios, na compra de ingressos, nos sites e aplicativos, na comunicação, nos serviços, na formação de funcionários, na contratação de profissionais com deficiência e nos espaços de participação e decisão.

Da mesma forma, a ausência de uma postagem no dia 21 não permite concluir, isoladamente, que uma instituição não possua nenhuma política de inclusão.

O que o levantamento revela é outra questão: quando chegou uma das principais datas nacionais de mobilização pelos direitos das pessoas com deficiência, a participação pública verificável da elite do futebol brasileiro foi restrita.

Três clubes em um universo de 20 significam que apenas 15% da Série A tiveram manifestações específicas identificadas pela reportagem.

Os outros 85% não tiveram conteúdo relacionado à data localizado nos canais pesquisados até a manhã desta terça-feira (22).

Em um esporte que possui uma das maiores capacidades de mobilização do país, ampliar essa participação significa também reconhecer que pessoas com deficiência não querem estar apenas em campanhas institucionais.

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