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O Brasil é um grande palco de eventos e festivais. Mas eles são acessíveis?

A música, a celebração, o entretenimento, os contatos profissionais e a troca de experiências levam multidões a festivais, feiras, congressos e competições esportivas em todo o Brasil.

Ilustração de um festival com palco e barracas, pessoas em cadeiras de rodas entre o público e duas mulheres conversando em língua de sinais.
Ilustração: Imagem fornecida no documento de Renato Melhem

Autor: Renato Melhem | Arquiteto e consultor em acessibilidade e mobilidade

A música, a celebração, o entretenimento, os contatos profissionais e a troca de experiências levam multidões a festivais, feiras, congressos e competições esportivas em todo o Brasil. Do Carnaval à Bienal do Livro, esses encontros oferecem algo que as telas não substituem: a experiência de compartilhar presencialmente um lugar e um momento. Não é por acaso que as grandes turnês, festivais e eventos internacionais incluem o Brasil no seu calendário e que temos um número tão expressivo de eventos nacionais ocorrendo anualmente. Nós gostamos de nos encontrar, e o mundo sabe disso.

Esse movimento se reflete num mercado que está em expansão. Segundo o Radar Econômico da Associação Brasileira dos Promotores de Eventos (ABRAPE), o núcleo de atividades acompanhado pela entidade reunia 208,1 mil empregos formais em junho de 2026, volume 86,8% superior ao de 2019 [1]. Esse recorte inclui organização de eventos, atividades artísticas e culturais, espetáculos, recreação e lazer, além da produção e promoção de eventos esportivos. O levantamento foi elaborado com base em dados do Ministério do Trabalho e Emprego, do IBGE e da Receita Federal. Trata-se de um crescimento expressivo em relação ao período anterior à pandemia, embora a entidade registre desaceleração na geração de empregos em 2026. Na minha avaliação, quanto mais cresce a influência do mundo virtual, mais preciosos se tornam os momentos em que as pessoas se encontram presencialmente. Esse número crescente reforça também a importância desses encontros para a cultura, os negócios e a vida social.

Ao entendermos a posição estratégica dos eventos na conexão real das pessoas e na construção da vida social, precisamos responder a uma questão: eles são inclusivos ou excludentes? Na minha avaliação profissional, a maioria ainda não oferece condições adequadas de acessibilidade, embora devesse oferecê-las. As barreiras nos espaços, na comunicação ou no atendimento acabam afastando as pessoas com deficiência de experiências que deveriam estar ao alcance de todos. Temos um importante canal de identificação social a que as pessoas com deficiência muitas vezes não têm acesso.

Enfrentar esse desafio começa por conhecer o público e compreender suas necessidades. Imagine comprar o ingresso para um festival e descobrir que o caminho até o palco tem obstáculos que você não consegue vencer. Ou chegar a um congresso e não conseguir acompanhar o conteúdo. Ou precisar sair mais cedo porque não há um sanitário que possa utilizar. Nessas situações, o convite para participar esbarra nas condições oferecidas. A ausência de público com deficiência pode ter sua explicação justamente nas barreiras que tornam a experiência difícil, insegura ou inviável.

Superar essas barreiras exige que a acessibilidade arquitetônica acompanhe todo o percurso. Desde a chegada ao local até a saída, entradas, pisos, rampas, sanitários, balcões e áreas de alimentação devem permitir o uso com autonomia e segurança. Quem utiliza cadeira de rodas, por exemplo, precisa conseguir chegar à área de público e enxergar a atração. Um colaborador do evento com mobilidade reduzida precisa acessar palcos, camarins e postos de trabalho. Cada trecho desse caminho tem importância: uma barreira pode comprometer o restante da experiência.

Esse cuidado se estende à comunicação, que começa antes da chegada ao local. O público precisa encontrar informações acessíveis, comprar ingressos, entender a programação e saber quais recursos estarão disponíveis. Libras, legendagem, audiodescrição e guia-interpretação atendem a necessidades diferentes e devem integrar o planejamento dos conteúdos. Sinalização clara e avisos de emergência perceptíveis por diferentes meios ajudam a orientar e proteger. A participação depende tanto de alcançar os espaços quanto de compreender o que acontece neles.

Na minha atuação profissional, defendo que a acessibilidade deve entrar nas primeiras decisões de produção. A escolha do local, o projeto, o orçamento e a contratação de fornecedores precisam conectar infraestrutura, comunicação, transporte, atendimento e segurança, com equipes preparadas e acompanhamento da operação, para que o direito de participar se traduza em uma experiência inclusiva e acolhedora.

Para orientar essas decisões, existem referências que ajudam a transformar intenção em decisões de projeto e produção. A Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) publica normas aplicáveis à acessibilidade, à produção e à gestão de eventos. A ABNT NBR 9050:2020 estabelece critérios de acessibilidade arquitetônica para edificações, mobiliário, espaços e equipamentos urbanos; a ABNT NBR 16537:2024 trata da sinalização tátil no piso que orienta a mobilidade de pessoas com deficiência visual. Para os sites de divulgação e venda de ingressos, a ABNT NBR 17225:2025 reúne requisitos de acessibilidade em conteúdos e aplicações web [2–4].

Na organização e na gestão de eventos, a ABNT NBR 16004:2022 oferece uma terminologia comum e critérios de tipologia e classificação dos eventos; a ABNT NBR 16566:2016 trata dos sistemas de gestão de segurança; e a ABNT NBR ISO 20121:2026 estabelece requisitos para a gestão da sustentabilidade de eventos. Quando aplicadas às características de cada evento, essas referências ajudam a conectar o acesso à informação ao uso dos espaços [5–7].

Além das normas acima, a ABNT criou recentemente a Comissão de Estudo CE 040:000.005 – Acessibilidade em Eventos, da qual sou membro e que trabalha na elaboração de uma norma específica para o tema. Vejo nesse processo uma oportunidade de reunir experiência prática e conhecimento técnico para orientar organizadores e produtores em todo o país.

Para além dessas orientações técnicas, ouvir as pessoas com deficiência é decisivo. É como defende o lema “Nada sobre nós sem nós”. Elas devem participar do diagnóstico, testar soluções e avaliar o que foi oferecido. Transformar essa escuta em melhorias exige recursos e compromisso dos organizadores. Nesse esforço, defendo a possibilidade de que os patrocinadores possam associar sua marca diretamente ao propósito da inclusão. Financiar serviços de comunicação, transporte ou apoio sensorial pode ampliar o acesso e fortalecer a relação com o público. Cotas de patrocínio voltadas à acessibilidade, associadas a um planejamento adequado, permitem definir quais recursos serão oferecidos, quem será responsável por sua execução e como os resultados serão avaliados.

O caso paulistano

Se nosso país é referência em grandes eventos, São Paulo é a capital desses eventos no Brasil. Seu calendário reúne eventos como Lollapalooza Brasil, Bienal Internacional do Livro, Carnaval, Virada Cultural, Grande Prêmio de Fórmula 1 e The Town – no qual pude acompanhar a produção por ser coordenador de Acessibilidade e Desenho Universal da Prefeitura. Para ter um exemplo dessa dimensão, o GP de Fórmula 1 de 2025 teve impacto econômico total estimado em R$ 2,3 bilhões, considerando efeitos diretos e indiretos, segundo estudo da Fundação Getúlio Vargas divulgado pela Prefeitura [8].

Nesse contexto, a municipalidade mantém um calendário de eventos estratégicos, atualizado para 2026 pela Portaria PREF nº 1.042, de 23 de julho de 2026 [9]. Na área da acessibilidade, a Comissão Permanente de Acessibilidade da Prefeitura de São Paulo aprovou a Resolução CPA/SMPED/032/2023, da qual sou um dos autores, que define as diretrizes municipais de acessibilidade e desenho universal em grandes eventos e festivais [10].

O documento abrange soluções arquitetônicas como rotas acessíveis, rampas, sinalização, sanitários, balcões de atendimento em duas alturas e plataformas reservadas a pessoas com deficiência, que ofereçam boa visibilidade e permitam a proximidade de acompanhantes. E também contempla comunicação acessível, equipes de apoio treinadas, centros de acessibilidade, acolhimento sensorial e condições de segurança em emergências. Esse olhar alcança palcos, camarins, estandes e áreas de trabalho, reconhecendo que pessoas com deficiência também são artistas, palestrantes, expositoras e profissionais envolvidas na realização dos eventos [10].

Em resumo, ao reunir planejamento, orientação técnica, escuta e investimento, o mercado de eventos pode dar um salto de qualidade e se transformar em um grande veículo de promoção da inclusão e da diversidade. Uma pessoa que consegue assistir ao artista que admira, apresentar seu trabalho ou compartilhar um festival com amigos vive uma experiência inclusiva inesquecível. Esse valor é transmitido a pessoas próximas, e o evento passa a ter mais reconhecimento e credibilidade. Quem teria receio da exclusão se encoraja a frequentar o evento. Além de assegurar um direito, a acessibilidade deve ser reconhecida por sua importância estratégica na realização de eventos. A grandeza de um evento também se revela em quem ele consegue incluir.

Sobre o autor

Renato Melhem é arquiteto e consultor em acessibilidade e mobilidade, um dos autores da Resolução CPA/SMPED/032/2023 e membro da Comissão de Estudo de Acessibilidade em Eventos da ABNT. Ao lado de Cid Torquato, criou uma equipe de curadoria estratégica que orienta o planejamento da acessibilidade em eventos, a escolha de soluções e fornecedores e a avaliação dos recursos oferecidos.

Faixa com seis ilustrações de pessoas em feira, show, desfile de moda, corrida automobilística, basquete em cadeira de rodas e encontro profissional.

Fontes e referências

  1. ABRAPE. Setor de eventos desacelera geração de empregos em 2026 no país. Radar Econômico, 3 de agosto de 2026. Dados de emprego referentes a junho de 2026. Disponível em: https://www.abrape.com.br/setor-de-eventos-desacelera-geracao-de-empregos-em-2026-no-pais/. Acesso em: 16 out. 2026.
  2. ABNT. ABNT NBR 9050:2020 — Acessibilidade a edificações, mobiliário, espaços e equipamentos urbanos. Versão corrigida: 2021.
  3. ABNT. ABNT NBR 16537:2024 — Acessibilidade — Sinalização tátil no piso — Diretrizes para elaboração de projetos e instalação.
  4. ABNT. ABNT NBR 17225:2025 — Acessibilidade em conteúdo e aplicações web — Requisitos.
  5. ABNT. ABNT NBR 16004:2022 — Eventos — Terminologia, tipologia e classificação. Registro bibliográfico: https://www.dinmedia.de/en/standard/abnt-nbr-16004/359136776. Acesso em: 16 out. 2026.
  6. ABNT. ABNT NBR 16566:2016 — Eventos — Sistemas de gestão de segurança — Requisitos. Referência também indicada no Caderno Técnico nº 01 — Alvará de Autorização de Evento Temporário, da Prefeitura de São Paulo, 2021. Disponível em: https://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/upload/licenciamentos/CT01-AlvaraAutorizacaoEventoTemporario-2021_09_02.pdf. Acesso em: 16 out. 2026.
  7. ABNT. ABNT NBR ISO 20121:2026 — Sistemas de gestão da sustentabilidade em eventos (SGSE) — Requisitos com orientação para uso. Publicada em 18 de março de 2026. Registro bibliográfico: https://www.dinmedia.de/en/standard/abnt-nbr-iso-20121/401717537. Acesso em: 16 out. 2026.
  8. Prefeitura de São Paulo. GP São Paulo 2025 bate recordes: público ultrapassa 303,6 mil, impacto econômico alcança R$ 2,3 bilhões e empregos aumentam 17,3%. 12 de novembro de 2025. Divulgação de estudo da Fundação Getulio Vargas, com base em dados da Secretaria Municipal de Turismo e da SPTuris.
  9. SÃO PAULO (Município). Portaria PREF nº 1.042, de 23 de julho de 2026. Divulga o Calendário Estratégico de Eventos de 2026 da Cidade de São Paulo. Disponível em: https://legislacao.prefeitura.sp.gov.br/portaria-prefeito-pref-1042-de-23-de-julho-de-2026. Acesso em: 16 out. 2026.
  10. SÃO PAULO (Município). Comissão Permanente de Acessibilidade. Resolução CPA/SMPED/032/2023. Aprova o anexo Diretrizes de Acessibilidade e Desenho Universal para Grandes Eventos e Festivais. Aprovada na reunião de 13 de dezembro de 2023. Disponível em: https://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/upload/pessoa_com_deficiencia/Acessibilidade%20e%20Desenho%20Universal%20em%20Grandes%20Eventos%20e%20Festivais%20-%20%20Resolu%C3%A7%C3%A3o%2032.pdf. Acesso em: 16 out. 2026.
Renato Melhem Consultoria. Arquitetura, mobilidade e acessibilidade.

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